E Entornou o Bule

sábado, 28 de janeiro de 2012



No dia dezoito saiu uma notícia absurda no “Bule Voador”, blogue que pretensiosamente se apresenta órgão oficial de uma “igreja ateísta” chamada “Liga Humanista Secular do Brasil”, que, por sua vez, se intitula como capítulo tupiniquim de uma série de movimentos gringos que incluem nomes pomposos (e devidamente gringos) como Daniel Everett e Daniel Dennet, além de expoentes do ceticismo internético nacional, como o Kentaro Mori (cujo trabalho eu respeito muito).
A postagem em questão é um relato, digno de filme de terror, sobre como um pobre ateu teria sido submetido, por uma enfermeira e em um quarto de hospital, a uma sessão de tortura que quase lhe tirou a vida. Tortura essa motivada pelo fanatismo religioso. As reações, mesmo dentro da comunidade cética, devem ter sido intensas, tanto assim que, mesmo sem retirar a postagem, os responsáveis pelo blogue trataram de trancar os comentários para evitar a saraivada de críticas que certamente estão pululando. Entre elas a minha, que eu estou compartilhando aqui, nesse humilde espaço desconhecido, já que os moderadores não a aceitaram lá.
Primeiro vamos ao resumo dos fatos, enquanto ainda os tenho frescos na memória (e isto é necessário, pois os verdadeiros fatos estão agora restritos ao próprio post do Bule Voador e a algumas notas no Facebook, pois o blogueiro responsável pela denúncia apagou o que escrevera).
Em dia, hora e local indeterminados, “Guilherme Kempoviki”, o autor de um conhecido blogue anticristão foi internado em um hospital não identificado para tratar-se de uma crise cardíaca grave. Deu entrada com parada cardiorrespiratoria e ficou na UTI durante três dias (tal qual Jesus Cristo morto ficou na sepultura). Após esse período teve alta, mas ainda respirando com a ajuda de aparelhos. Mesmo sedado e respirando com um aparelho, Guilherme ainda tinha cabeça para pensar em abastecer seu ateísmo assistindo um DVD da série “Cosmos”, apresentada por Carl Sagan na PBS (EUA) nos anos 70. Uma enfermeira “evangélica”, sentindo-se incomodada pelo “culto ao demônio” que aquele programa representava, sacou do bolso um DVD do Pastor Silas Malafaia e o substituiu pelo DVD de Sagan, que foi jogado ao chão e pisoteado. Em seguida a enfermeira passou a obrigar Guilherme a assistir a pregação, sob o pretexto de exorcizar o diabo de seu corpo. Para facilitar a enfermeira trancou a porta do quarto a chave e desligou os aparelhos que o mantinham respirando. O exorcismo incluiu segurar a cabeça do paciente para que ele não pudesse desviar o olhar da tela e gritar orações em alta voz, supostamente para afastar Satanás. Os gritos da enfermeira atraíram médicos e pacientes, que arrombaram a porta com um extintor de incêndio e salvaram o narrador, prendendo a enfermeira.
Tal postagem e tal tópico me incomodaram profundamente devido à forma com que os supostos fatos foram apresentados. Não houve o menor interesse em checar a verdade, por exemplo. Verdade? Bem, como eu mesmo já alertei em um texto anterior, a verdade é algo muito flexível quando se faz política. O que é verdade para me apoiar pode perfeitamente ser mentira para me defender, e vice versa. Que políticos inescrupulosos, à direita e à esquerda, recorram a esses sofismas rasteiros é algo que não me surpreende. Mas que isso seja feito por uma entidade que evoca em seu próprio símbolo o grande Bertrand Russell, é algo que me choca muito mais até do que o fato narrado, se verdadeiro. Porque dos estúpidos só se pode esperar a estupidez, mas de quem se diz sábio, esperamos a sabedoria.
Eu não costumo comentar no Bule Voador com frequência, aliás, nem é com frequência que eu o leio. Mas como a Åsa Heuser e o Eli Vieira, velhos conhecidos dos tempos de Orkut, estão envolvidos nesta nova “igreja ateísta”, eu acabei pondo o link do Bule no blogroll do Arapucas Libertárias. E foi desta forma que tomei conhecimento da notícia absurda e fui lá ler e comentar. Eu não costumo comentar no Bule Voador, e nem acompanhar o “movimento ateu” em qualquer de suas seitas devido a razões que prefiro não explicar de novo (quem não ficou sabendo, melhor que não fique), mas que são de conhecimento das pessoas acima mencionadas que, aliás, estão em minha lista de amigos do Google Talk e do Facebook para o caso de se sentirem ofendidas por esta postagem.
A ofensa se deve ao fato de que, ao contrário de muitos leitores e comentaristas do Bule, eu percebi de imediato que havia algo muito errado com a postagem. Tantos erros, de fato, que o espanto me deteve sem poder articular uma resposta, por um bom tempo.
Para começar, a história foi contada com todas as características de uma lenda urbana, menos uma. Tal como em uma lenda urbana, o fato narrado não cita data, nem local, nem cenário, nem testemunhas. Sabemos um nome para o protagonista, mas na internet, onde tanta coisa é pseudônimo, como saber se isso também não pode ser ficção? Sem elementos que permitam a averiguação dos fatos, a história só pode ser aceita com base na fé. Ora, supostamente ateus não têm fé…
Não apenas tiveram fé os muitos que aceitaram a história de forma automática e passaram a tecer comentários irados, como a tiveram sem prova alguma (São Tomé foi mais ateu do que estes).
Ateus supostamente são racionais, e não precisam de “historinhas edificantes”, mas o responsável pela publicação (no sentido de “alguém que deveria ser responsabilizado) fez questão de escrever no seu cínico preâmbulo que “Em nenhum momento está sendo dito textualmente que o relato aduzido aqui é verídico ou que possui provas legais”. Como diria o cantor Falcão: “Não é verdade que mulher feia só sirva para peidar em festa”. Mas se não estão afirmando que é verdade e nem mentira e se reconhecem a precariedade das provas, por que, com mil demônios, o texto foi publicado? Porque “isso envolve o transtorno mental de uma pessoa e não meramente a religião da mesma. Isso também serve como um experimento sociológico para verificar o ceticismo e o racionalismo crítico de certos ateus” (o grifo é do Bule, não meu). Rá, pegadinha do malandro!? Não acompanhei o histórico da postagem durante o dia, não sei se este preâmbulo esteve lá o tempo todo, mas me parece que os dizeres que lá estão foram inspirados por um Espírito Santo advocatício, no intuito de proteger os resposáveis pela publicação (vide nota no início do parágrafo) pelo que facilmente poderia ser interpretado como um crime de difamação contra um grupo social (os evangélicos ou, no mínimo, as enfermeiras evangélicas) e, indiretamente, uma pessoa pública (Silas Malafaia). Mais ou menos o mesmo tipo de ato que o Datena cometeu contra os ateus e que o mesmo Bule Voador não para de relembrar em postagens quase mensais, como essa, recente.
Existem indícios fortes para se suspeitar que a história é uma obra de ficção, e má ficção, como esta aqui, de autoria do mesmo Guilherme. A diferença é que esta ostensivamente ficcional está publicada no seu blogue, “Ecleticando”, e a supostamente “real” não. Os indícios são os seguintes:
  1. Porta de quarto de hospital com tranca a chave. Nunca vi nada disso em nenhum dos seis hospitais por que já passei. Há uma maçaneta de trinco, apenas para fins de privacidade dos pacientes. Em quartos coletivos, nem isso. Na maioria dos hospitais as portas dos quartos são corrediças. Existem razões para imaginar que a porta de um quarto de hospital deva ser fácil de abrir: no caso de um mal súbito do paciente, não se espera que o acompanhante tenha o expediente de abrir a porta para o médico e/ou enfermeiro entrar. O simples fato de haver um tranca na porta é motivo, em minha opinião, para o suposto paciente Guilherme processar o hospital.
  2. Um paciente grave, recém-saído de uma UTI, ficando em um quarto sem acompanhente. Menciono isso porque não se fala, no relato original, de ninguém da família e nem amigo. A pergunta que se faz é “quem pôs o DVD do Sagan para ele assistir”.
  3. Essa historia do DVD de “Cosmos” está muito estranha. Primeiro que Cosmos não é uma bíblia do ateísmo. Certos episódios, vistos pela ótica de um religioso, podem ser até vistos como "glorificação da obra de Deus". Segundo que a série, por ter sido exibida no Brasil há mais de trinta anos, é praticamente desconhecida do grande público. Seria muita coincidência ele ser tratado por uma enfermeira que conhece a série.
  4. Como um paciente que ainda respira com a ajuda de aparelhos, apenas três dias após um infarto e uma parada cardiorrespiratória, recebe alta de uma UTI e vai para um quarto? Embora eu não seja médico, acredito que seja algo muito incomum, especialmente se considerarmos que o paciente em questão estava, no mínimo, pagando tratamento particular ou tinha um bom plano de saúde (digo isso porque ficou em um quarto individual que não apenas tinha televisão em cores como também um DVD-player).
  5. Por fim, uma acusação destas, feita sem qualquer indício mais sólido (publicação em jornal, apresentação do B.O., depoimentos de mais testemunhas, peça processual etc.) não recomenda que a aceitemos. Me parece que, de fato, estamos diante de um experimento sociológico do autor do blogue, para saber o quanto os ateus são crédulos em historinhas que afagam seus preconceitos. Isto, claro, se o experimento não for do próprio Bule.
Infelizmente — e essa é uma das razões pelas quais eu me afastei do “movimento ateu” — a resposta é que os ateus são crédulos em historinhas, buscam ídolos e mártires, idolatram símbolos1 e seguem rituais, exatinho como os crentes. Chegam até a sacralizar seus textos (ou vídeos) sagrados, e se inflamam quando são “profanados”. Eu costumo dizer que é muito fácil tirar o homem de dentro da igreja, muito mais difícil é tirar a igreja de dentro do homem.
Que a história seja falsa, vá lá. Que tenha sido publicada no Bule, nem tanto. Se foi publicada de boa fé, tremendo papelão o de meus amigos filósofos, admiradores de Russell e farejadores de falácias. Que belos guias cegos eles se saem numa hora dessas.
Simplesmente não tem desculpa o que o Bule Voador fez. Se eu fosse o Silas Malafaia eu estaria processando por difamação, por ter o meu nome envolvido, como Pilatos no credo, em uma história ridícula destas. Se a história é mentirosa, e eu não tenho motivo nenhum para achar que seja verdadeira, então ele foi envolvido indevidamente nela.
Não tem desculpa porque isso que o Bule fez foi simplesmente “jornalismo marrom”2. Em vez de averiguar e prestar a informação completa, sólida e lógica, preferiu jogar no ar uma informação vaga, parcial, imaterial, apenas com a justificativa “mandrake” de que não assume responsabilidade pela veracidade justamente daquilo que escolheu reproduzir.3
Sinto muito dizer isso aos que escreveram, especialmente aos dois citados amigos, mas isso não se faz. Isso é exatamente o que Datena fez e o Bule tanto protestou. Datena culpabilizou os “ateus” (gente que, em seu falar precário, “não tem Deus no coração”) pelos crimes do mundo, “Guilherme K”, legitimado pelo Bule Voador, sugeriu que Silas Malafaia fanatiza seus seguidores e que enfermeiras evangélicas são um perigo.
O pior momento, o verdadeiro nadir moral e filosófico do Bule Voador ocorre no corpo do relato, redigido pelos responsáveis pelo “Bule”:
São casos de intolerância como este, que nos fazem perceber a necessidade urgente de um Estado VERDADEIRAMENTE Laico.
Aham, senta lá, Cláudia. Senta na falácia que você gosta de apontar nos outros. Vai doer.
Temos aqui uma total inversão do processo, exatamente como no famoso cartum criacionista.
Temos uma conclusão (a necessidade de um estado verdadeiramente laico) e então os fatos que demonstrem isso de forma mais didática não precisam passar por um crivo racional tão intenso.
Este é apenas um breve comentário sobre o ocorrido, porque, como vocês perceberam, só este caso do Guilherme já nos rende um leque de assuntos polêmicos a serem discutidos:
O importante aqui não é a veracidade do fato narrado (que não se procurou averiguar), mas a utilidade da história para render um leque de assuntos polêmicos. Isso é jornalismo marrom, queridos amigos do Bule. Marrom como o chá que tem dentro da porcelana. Vocês estão distribuindo uma notícia que não sabem ser verdadeira, apenas pelo amor da polêmica que ela causa — e que lhes é útil.
Estou muito decepcionado com mais essa escorregadela do “movimento ateu”4 porque justamente a LiHS, surgida como dissidência da ATEA, propunha-se como uma alternativa mais lógica e mais serena. No entanto, tal como esta, e tal como a UNA, também está sucumbindo à falta de critério de seus líderes. Isso só serve para me mostrar o quanto é ilusório imaginar que algum tipo de liderança se mantenha autêntica. Nós, que nos dizemos ateus, não podemos sucumbir à tentação de crermos em líderes, a não ser aqueles que sejam transitórios. Uma mente racional e cética não busca um pastor, não busca quem lhe diga o que pensar. A mensagem até pode ser bonita, mas a longo prazo o pragmatismo chega e as decisões começam a ser tomadas em nome dele, e não da verdade.
E quando isso acontece, surgem os expurgos, surgem os cismas, surgem as guerras civis. Se construirmos igrejas ateístas baseadas em líderes e em prestígio permanente, só conseguiremos criar cultos como o comunismo, cheio de símbolos, hinário e rituais. Volto a dizer que é fácil tirar o homem da igreja, mas é difícil tirar a igreja de dentro do homem. A racionalidade é uma planta frágil, que brota numa horta onde cresce muita erva daninha. Ou capinamos todos os dias para permitir que respire e cresça, ou então ela se iguala no matagal indistinto da irracionalidade.
1 O bule de chá voador foi uma hipótese de Russell empregada para ridicularizar a crença em coisas que não vemos, sem indícios que embasem. O bule de chá (supostamente orbitando o sol além da órbita de Vênus, sempre em sincronia com aquele brilhante planeta, e por isso invisível) é uma representação alegórica da ideia de Deus, um ser cuja existência não pode ser explicada logicamente e cuja observação é impossível. Mas o mais curioso é que o Bule de Chá de Russell serve perfeitamente para demonstrar como o blogue ateísta brasileiro pisou feio no tomate ao reproduzir a história do Guilherme.
2 Que Gramsci me perdoe, mas a melhor definição para o seu termo clássico é “jogar a merda no ventilador”. Marrom assim.
3 Muito embora o bule não tenha a pretensão de ser "imprensa" ele acaba sendo ao republicar notícias voltadas ao seu nicho, o "movimento ateu".
4 Sempre uso “movimento ateu” entre aspas porque achei fodástica a frase do Dawkins que diz que organizar ateus é como pastorear gatos.

1 comentários:

Roberto Cavalcanti disse...

O que esperar de um movimento que tem como Vice-Presidente uma senhora que se simulava luterana para o seu marido não perder clientes?

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