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sexta-feira, 15 de julho de 2011

As perigosas mentiras do novo filme "Ágora"

Por: pe. ROBERT BARRON
Tradução: Emerson Honório de Oliveira


Juntamente com os contos de Galileu e Giordano Bruno, a lenda de Hipátia é um dos favoritos dos ideólogos antireligiosos.


Aqui vamos nós de novo. Acabei de ver o novo filme Ágora , que é uma recontagem da história de Hipátia, a brilhante mulher filósofa de Alexandria que foi morta, supostamente, por uma multidão de "cristãos", no ano 415. Juntamente com os contos de Galileu e Giordano Bruno, a lenda de Hipátia é um favorito dos ideólogos antireligiosos. A primeira vez que ouvi da história foi por Carl Sagan , o popular cientista cujo programa "Cosmos" foi amplamente visto na década de 1970. "Cosmos", de fato, chega ao seu clímax com o ensaio melodramático de Sagan sobre a narrativa. Hipátia, ele diz, era uma cientista e filósofa que entrou em conflito com Cirilo, o ímpio bispo de Alexandria, que então despertou uma multidão de seus seguidores supersticiosos que posteriormente mataram Hipátia. Sagan comentou: "a tragédia suprema foi que quando os cristãos chegaram a queimar a grande biblioteca de Alexandria, não havia ninguém para detê-los". E só para piorar mais, ele disse, "e eles fizeram de Cirilo um santo." Sagan conta que encontrou suas informações na versão da história de Edward Gibbon em seu clássico anticristão Declínio e Queda do Império Romano. Na verdade, Gibbon foi o primeiro a ligar o assassinato de Hipátia com o incêndio da biblioteca de Alexandria. O novo filme de Alejandro Amenabar ergue-se firmemente na tradição Gibbon / Sagan, apresentando Hipátia como uma santa do racionalismo secular que desesperadamente reúne pergaminhos da biblioteca antes de ser sequestrada por uma turba de cristãos histéricos e que vai nobremente a sua morte, defendendo a razão ea ciência contra os avatares da superstição religiosa.
Bem, de fato Hipátia foi  uma filósofa e de fato foi morta por uma multidão em 415, mas praticamente tudo o mais sobre a história que Gibbon, Sagan e Amenabar dizem é falso. Para o desmascaramento desse mito, deem uma olhada no livro Delírios ateus de David Hart Bentley, mas permita-me compartilhar apenas alguns detalhes. A biblioteca de Alexandria foi queimada até o chão, não por uma turba cristã no século V, mas pelas tropas de Júlio César, cerca de quarenta anos antes de Jesus nascer. Um templo ao deus Serápis, chamado Sarapião, foi construído no local da antiga biblioteca (e pode ter havido alguns pergaminhos nele no século V), e foi este edifício que foi destruído por um grupo de cristãos enfurecidos na época de Hipátia, em resposta às contaminações pagãs de casas de culto cristão. Note que eu não estou desculpando nada disso por enquanto. Sempre que os cristãos responderam a tais ataques com violência, eles estão se opondo-se a quem disse: "amai os vossos inimigos" e "dar a outra face." Mas de fato eu insisto que a acusação de que cristãos violentamente destruíram o maior centro de aprendizagem do mundo antigo é uma calúnia.

Mais do que isso, Hipátia, infelizmente, se viu presa no meio de uma luta entre duas figuras poderosas em Alexandria, ou seja, Orestes - a autoridade civil - e Cirilo, o bispo. Ela muito provavelmente foi morta em retaliação pelo assassinato de alguns dos partidários de Cirilo por agentes de Orestes. Novamente, tudo isso é uma coisa desagradável, e eu não estou tentando inocentar ninguém, mas para lançar esta história de forma política como uma batalha entre a doce razão e a superstição religiosa viciosa é enganosa, para dizer o mínimo. Finalmente, embora em grande parte o filme a retrata como uma astrônoma (provavelmente para forçar as comparações com Galileu), Hipácia era mais conhecida como uma filósofa neo-platônica, uma devota de Platão e Plotino. Não só havia cristãos nas aulas de Hipátia, não só havia bispos cristãos entre seu círculo de amigos, mas havia também teólogos cristãos - Agostinho, Ambrósio e Orígenes, só para citar os mais proeminentes -  e eles eram entusiastas defensores do neo-platonismo. Portanto, retratá-la como a campeã da nobre razão sobre os intolerantes cristãos primitivos é simplesmente ridículo.

Meu medo muito real é que a mesquinhez, meias-verdades e calúnias em livros como Christopher Hitchens é Deus Não é Grande e Richard Dawkins A Desilusão de Deus começaram a agir na cultura popular.
Mas nada disso chega ao coração da razão pela qual eu me oponho a Ágora. Em uma das cenas mais visualmente interessantea do filme, Amenabar traz sua câmera até um ponto muito alto de vantagem com vista para a biblioteca de Alexandria , enquanto ela está sendo saqueada pela multidão cristã. A partir desta perspectiva, os cristãos parecem para todo o mundo como baratas correndo. Em outra cena memorável, o diretor mostra um grupo de bandidos cristãos carregando em carroças os cadáveres mutilados de judeus que eles acabaram de condenar à morte, e ele compõe a cena de tal forma que os corpos empilhados vividamente chamam a atenção para os corpos dos mortos em fotografias de Dachau e Auschwitz. A implicação não tão sutil de tudo isso é que os cristãos são tipos perigosos, ameaças à civilização, e que devem, como pragas, ser eliminados. Pergunto-me se alguma vez ocorreu a Amenabar que seu filme poderia incitar a violência contra as pessoas religiosas, especialmente os cristãos, e que precisamente a sua forma de crítica foi usada por alguns dos mais ferozes perseguidores do cristianismo no século passado. Meu medo muito real é que a mesquinhez, meias-verdades e calúnias em livros como Christopher Hitchens é Deus Não é Grande e Richard Dawkins A Desilusão de Deus começaram a agir na cultura popular.

Nós, cristãos, temos de resistir - e demonstrar a verdade dos fatos.

Pe. Robert Barron, "The Dangerous Silliness of Agora." Catholic New World (5 de maio de 2010). 

8 comentários:

betoquintas disse...

não obstante Hipátia foi assassinada por uma turba de cristãos.
ah, a velha mania dos cristãos de revisar a história para encobrir seus crimes...

Emerson disse...

Pois é. Não entendeu o ponto. Vocês generalizam. "Uma turba de cristãos" não é a Igreja tanto quanto possivelmente uma multidão de stalinistas assassinos não desmerece em si o ateísmo.

Emerson disse...

Bom, vou repetir para o iletrado "betoquintas" que não deve ter se informado melhor:

«Não só havia cristãos nas aulas de Hipátia, não só havia bispos cristãos entre seu círculo de amigos, mas havia também teólogos cristãos – Agostinho, Ambrósio e Orígenes, só para citar os mais proeminentes - e eles eram entusiastas defensores do neo-platonismo. Portanto, retratá-la como a campeã da nobre razão sobre os intolerantes cristãos primitivos é simplesmente ridículo».

Melhor parar de ficar vendo vídeos de neoateus anticatólicos, amigo.

Emerson disse...

Nossa, realmente TODOS os VERDADEIROS cristãos odiavam Hipátia, não é, manoel simplício?:)

betoquintas disse...

Emerson, na época de Hipátia haviam diversos cristãos. Tanto que o senhor mesmo diz que ela foi vítima de uma rixa entre cristãos.
Detalhe torpe que os cristãos fazem questão de omitir: quem é cristão tem o dever e a obrigação de seguir as doutrinas de Cristo que pregava não odiar seu inimigo e oferecer a outra face. Beem diferente da sanha de ódio e sede de sangue dos ditos cristãos.

Emerson disse...

Pois é, Beto. Mas não saiu do entrave que os críticos vociferam. De novo, veja quantos cristãos CONSCIENTES participavam das aulas de Hipátia. Entre eles estavam Agostinho e Ambrósio. Bom, não me parece que o "mainstream" cristão a odiava. Se ler nas entrelinhas e há muitas provas para isso, verá que foi um leitor chamado Pedro que levantou uma turba para atacá-la e por vários motivos. É reducionismo pensar que o "mainstream" cristão era contra ela, sendo que vemos que não foi.

Vocês ateus gostam de generalizar todos os "religiosos" num saco só e assim fica mais fácil ridicularizá-los. Errado. Você gostaria que eu lhe dissesse que todo ateu é imoral? Todo ateu é stalinista? Todo ateu é assassino? Não. Assim como existem falsos cristãos que agem errado (não seguem os preceitos cristãos) tem ateus que, independente de seu sistema de negação de Deus, são toscos e imorais.

Nós não merecemos o mesmo benefício da dúvida?

Vasco disse...

Ficar divagando em uma história da qual ninguém que está vivo vivenciou, dizendo que A ou B está certo e C está errado é perda de tempo. Agora, Que a religião cristã é baseada em intolerância (1 caminho verdadeiro em detrimento de infinitos caminhos falsos) é algo que eu vivenciei, vivencio e vivenciarei durante um penoso tempo da minha vida.

joão disse...

Os matemáticos, ao tempo de Hipatia de Alexandria, eram também astrónomos e, muitas vezes, astrólogos. Sucedia frequentemente que um certo desenvolvimento das pesquisas matemáticas se devia ao desejo de perscrutar o mundo não decifrável usando a razão, o que era contrário ao dogmatismo dos "cristãos" (aspas porque , em minha opinião, apenas tinham esse nome, não seguiam os Valores Cristãos que muito prezo).
A partir daí e durante séculos, a palavra "matemática" teve um sentido pejorativo e designou toda uma casta de cabalistas, magos e adivinhos, alvo de perseguições sem quartel. A ignorância em acção !
Santo Agostinho, no seu "De genis ad litteram", escreveu : " O bom cristão deve defender-se bdos matemáticos e de todos os que se dedicam a ímpias predições, sobretudo quando as suas previsões sejam verdadeiras (... e continua mas deixo só esta "pérola" de disparate).
Infelizmente, a igreja católica continua na senda do obscurantismo e da intriga e quanto a esta vejam-se as últimas notícias do Vaticano, com todos os complots que por lá vão !
Deviam ter vergonha de se intitular Cristãos.
M. J.
Professora de Matemática

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